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Terapia da tristeza

terapia-da-tristeza-frameNão é à toa que a depressão é considerada "o mal do século XXI": em um mundo cada vez mais egoísta e indiferente, a tristeza tem se alastrado como uma epidemia, destruindo famílias, amizades e muitos outros relacionamentos. Qual é, afinal, a cura para essa doença? Como a doutrina da Igreja e os conselhos dos santos podem ajudar as pessoas a superarem o luto e a angústia?
Conheça os remédios espirituais para lidar com vários tipos de tristeza: desde aquela ligeira angústia das tardes de domingo, até os ressentimentos mais profundos, causados pelo egoísmo e pela inveja.
A terapia para a tristeza enquanto paixão. – Para a tristeza passional, Santo Tomás de Aquino enumera remédios bastante "humanos", que vão desde o partilhar a dor com os amigos até um banho quente e uma boa noite de sono [1]. Diz ele que, "como qualquer repouso do corpo traz remédio a qualquer fadiga, provinda de qualquer causa não natural, assim também todo prazer é remédio que alivia qualquer tristeza, seja qual for sua origem" [2].
Um dos remédios aqui elencados pelo Doutor Angélico, no entanto, é de suma importância para entender a cura da tristeza doentia: trata-se da contemplação da verdade. Quanto mais se estuda as verdades de fé, quanto mais se reza e "quanto mais perfeitamente se ama a sabedoria" [3], mais "se exorcizam" as tristezas de nossas almas. É que toda tristeza – esteja ela nos sentimentos ou na vontade – consiste em fechar-se em um mundo distante da realidade.
A terapia para a inveja. – Exemplo prático disso é o pecado da inveja, que é, uma tristeza em relação ao bem alheio. Sobre este pecado, João Cassiano alerta que é mais difícil obter a sua cura que a dos outros vícios, já que foi a invidia o primeiro pecado de Satanás na terra, como atesta o Autor Sagrado: "Foi por inveja do diabo que a morte entrou no mundo, e experimentam-na os que são do seu partido" (Sb 2, 24). Continua Cassiano:
"De todos os vícios, de fato, o mais pernicioso e do qual é mais difícil se purificar é a inveja, a qual é acesa justamente pelos remédios que extinguem os outros vícios. Assim, por exemplo, se alguém se queixa de ter sofrido algum dano, a generosidade lhe oferece uma compensação, e ei-lo curado de seu mal. Se um outro se indigna, diante de uma injúria que lhe tiver sido feita, uma humilde satisfação o apazigua. Mas, que podes fazer a alguém que se ofende exatamente por ver-te mais humilde e mais agraciado (...), a quem se irrita tão somente com o sucesso da prosperidade alheia?" [4]
Em uma exortação a seus irmãos frades, São Francisco de Assis ordena que se evite o pecado da inveja, pois "todo aquele que inveja seu irmão pelo bem que o Senhor diz e faz nele, incorre no pecado de blasfêmia, porque inveja o próprio Altíssimo, que diz e faz todo bem" [5]. De fato, ao entristecer-se com o bem do outro, o invejoso "reclama" de Deus, já que é por decreto de favor divino que as pessoas são abençoadas.
O remédio da solidariedade. – Neste ponto, é possível perceber um componente de ira dentro da inveja. O invejoso se entristece e ao mesmo tempo se irrita com a bênção alheia. A sua cura se encontra, portanto, no relacionamento com as outras pessoas, na solidariedade com os outros. São Máximo, o Confessor, diz que:
"Também a tua inveja pode deter-se, se te alegrares por aquilo por que se alegra quem é invejado por ti, e se também te entristeceres por aquilo por que ele se entristece, cumprindo assim a palavra do Apóstolo: 'Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram' (Rm 12, 15)." [6]
Assim, quando algo acontece a si ou aos seus, as pessoas são tentadas a perguntar: "Por que comigo? Por que com os de minha família?" Quase não percebem que elas se fecharam em um mundo irreal, onde se tornaram como que "deusas intocáveis", a quem nada pode atingir ou fazer mal. Se, porém, essas pessoas entrarem em um mínimo contato que seja com a realidade, verão que todos os seres humanos estão suscetíveis aos males e desgraças desta vida, e que elas não eram assim tão especiais quanto imaginavam. As tragédias e eventualidades da vida podem abrir os seus olhos, chamando-as à solidariedade com o próximo e servindo de remédio para a sua doença.
O remédio da gratidão. – Enzo Bianchi, ao falar sobre a cura para a inveja, aponta outro remédio: o da gratidão. Diz ele que "matou o sentimento da inveja em si mesmo quem souber dizer: 'Aquilo que eu pude fazer de bem, eu o fiz graças aos outros que estão comigo: sem estes meus irmãos, sem estes meus amados, não poderia fazer aquele pouco de bem que realizei" [7]. Um dos passos da terapia, portanto, consiste em ser agradecido pelo dom do outro, enxergando a realidade sempre com um coração eucarístico, em constante ação de graças.
O remédio do amor. – A tristeza pecaminosa faz as pessoas deslizarem para um mundo paralelo, do qual desaparecem todas as realidades eternas. São Gregório Magno, em seu famoso e extenso comentário moral ao Livro de Jó, ensina a "quem quer ser totalmente liberto da peste da inveja" que "ame aquela herança que não diminui com o crescimento do número de herdeiros" [8]. O grande Papa e Doutor da Igreja vê na raiz do pecado da inveja o apego às coisas materiais. De fato, nos bens terrenos, o ter de um é muitas vezes associado ao mal e à privação por parte de outrem. Assim, se um indivíduo só recebe uma herança, ele tem tudo; se, porém, descobre um coerdeiro, é obrigado a repartir metade do que tem com ele. Para vencer a inveja, pois, é preciso elevar os olhos àquela herança "que não diminui com o crescimento do número de herdeiros". Ou seja, com os bens espirituais, acontece o contrário do que se dá com os objetos materiais: quando se dá Deus a uma pessoa, aumenta a caridade na alma de quem dá e cria-se a caridade na alma de quem recebe; se, por outro lado, se deseja o mal eterno a alguém, o primeiro a ganhar o mal é quem amaldiçoa, porque Deus e o ódio não podem conviver em um mesmo lugar.
Continua São Gregório: "Quae si perfecte in amore coelestis patriae rapitur, plene etiam in proximi dilectione sine omni invidia solidatur – Quem é perfeitamente arrebatado pelo amor da pátria celeste, torna-se plenamente solidário no amor ao próximo, sem nenhuma inveja" [9]. A cura da tristeza está, pois, no amor. Os marxistas acreditam que a fé na vida eterna "aliena" os homens e faz com que eles se esqueçam desta vida. O que acontece, porém, é o contrário: só de olhos fixos no Céu é possível resolver os antagonismos e os conflitos deste mundo. Para uma ideologia que vive em torno da inveja, é muito difícil aceitar isso. O teórico Pierre Bourdieu († 2002) insistia em que se falasse sobre o tema dos "excluídos" porque, de fato, todos podem sentir-se excluídos por alguma coisa e é esse sentimento de insatisfação – que degenera em ódio, guerras e destruição – o combustível para a revolução marxista.
O remédio para a "luta de classes" preconizada por Marx está na "contemplação da verdade", apontada por Santo Tomás: a realidade mais verdadeira que os homens devem ter diante de si é a grandeza de sua vocação, a efemeridade deste mundo e a bem-aventurança eterna da qual Deus nos quer fazer partícipes.
O remédio do arrependimento. – Para quem investiu toda a sua vida em alegrias passageiras, há uma solução: recorrer à verdadeira alegria, trilhando a senda do arrependimento. O místico São João Clímaco fala do πένθος (pénthos) [10], que não é senão o luto sadio do filho pródigo, que deixa de comer a lavagem dos porcos e volta para a casa do pai, onde é recebido com festa (cf. Lc 15, 11-32).
Atente-se que, diante da alegria com que é recebido de volta o irmão mais novo, o filho mais velho se entristece, não querendo entrar no festim de seu pai. Existem, portanto, uma tristeza que conduz à salvação e outra que conduz à morte. Na história da salvação, várias personagens representaram essa tristeza pecaminosa – de Caim a Saul, dos carrascos de Jesus aos perseguidores dos Apóstolos. Os seus exemplos, porém, são sinal de uma única e fatal tristeza: a que não reconhece a alegria do Evangelho e a verdade que, contemplada pelos homens, leva-os ao Céu.

Referências
Cf. Suma Teológica, I-II, q. 38.
Suma Teológica, I-II, q. 38, a. 1.
Suma Teológica, I-II, q. 38, a. 4.
Conferências, XVIII, 17 (PL 49, 1122-1123).
Admoestações, 8 (FF, 157).
Centúrias sobre a Caridade, III, 91 (PG 90, 1046).
BIANCHI, Enzo. Una lotta per la vita: conoscere e combattere i peccati capitali. San Paolo, 2011, p. 184.
Moralia in Iob, V, 86 (PL 75, 729).
Id. (PL 75, 730).
Cf. Escada do Paraíso, VII (PG 88, 801-828).

Site Pe. Paulo Ricardo

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