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Terapia da tristeza

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Não é à toa que a depressão é considerada "o mal do século XXI": em um mundo cada vez mais egoísta e indiferente, a tristeza tem se alastrado como uma epidemia, destruindo famílias, amizades e muitos outros relacionamentos. Qual é, afinal, a cura para essa doença? Como a doutrina da Igreja e os conselhos dos santos podem ajudar as pessoas a superarem o luto e a angústia?
Conheça os remédios espirituais para lidar com vários tipos de tristeza: desde aquela ligeira angústia das tardes de domingo, até os ressentimentos mais profundos, causados pelo egoísmo e pela inveja.
A terapia para a tristeza enquanto paixão. – Para a tristeza passional, Santo Tomás de Aquino enumera remédios bastante "humanos", que vão desde o partilhar a dor com os amigos até um banho quente e uma boa noite de sono [1]. Diz ele que, "como qualquer repouso do corpo traz remédio a qualquer fadiga, provinda de qualquer causa não natural, assim também todo prazer é remédio que alivia qualquer tristeza, seja qual for sua origem" [2].
Um dos remédios aqui elencados pelo Doutor Angélico, no entanto, é de suma importância para entender a cura da tristeza doentia: trata-se da contemplação da verdade. Quanto mais se estuda as verdades de fé, quanto mais se reza e "quanto mais perfeitamente se ama a sabedoria" [3], mais "se exorcizam" as tristezas de nossas almas. É que toda tristeza – esteja ela nos sentimentos ou na vontade – consiste em fechar-se em um mundo distante da realidade.
A terapia para a inveja. – Exemplo prático disso é o pecado da inveja, que é, uma tristeza em relação ao bem alheio. Sobre este pecado, João Cassiano alerta que é mais difícil obter a sua cura que a dos outros vícios, já que foi a invidia o primeiro pecado de Satanás na terra, como atesta o Autor Sagrado: "Foi por inveja do diabo que a morte entrou no mundo, e experimentam-na os que são do seu partido" (Sb 2, 24). Continua Cassiano:
"De todos os vícios, de fato, o mais pernicioso e do qual é mais difícil se purificar é a inveja, a qual é acesa justamente pelos remédios que extinguem os outros vícios. Assim, por exemplo, se alguém se queixa de ter sofrido algum dano, a generosidade lhe oferece uma compensação, e ei-lo curado de seu mal. Se um outro se indigna, diante de uma injúria que lhe tiver sido feita, uma humilde satisfação o apazigua. Mas, que podes fazer a alguém que se ofende exatamente por ver-te mais humilde e mais agraciado (...), a quem se irrita tão somente com o sucesso da prosperidade alheia?" [4]
Em uma exortação a seus irmãos frades, São Francisco de Assis ordena que se evite o pecado da inveja, pois "todo aquele que inveja seu irmão pelo bem que o Senhor diz e faz nele, incorre no pecado de blasfêmia, porque inveja o próprio Altíssimo, que diz e faz todo bem" [5]. De fato, ao entristecer-se com o bem do outro, o invejoso "reclama" de Deus, já que é por decreto de favor divino que as pessoas são abençoadas.
O remédio da solidariedade. – Neste ponto, é possível perceber um componente de ira dentro da inveja. O invejoso se entristece e ao mesmo tempo se irrita com a bênção alheia. A sua cura se encontra, portanto, no relacionamento com as outras pessoas, na solidariedade com os outros. São Máximo, o Confessor, diz que:
"Também a tua inveja pode deter-se, se te alegrares por aquilo por que se alegra quem é invejado por ti, e se também te entristeceres por aquilo por que ele se entristece, cumprindo assim a palavra do Apóstolo: 'Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram' (Rm 12, 15)." [6]
Assim, quando algo acontece a si ou aos seus, as pessoas são tentadas a perguntar: "Por que comigo? Por que com os de minha família?" Quase não percebem que elas se fecharam em um mundo irreal, onde se tornaram como que "deusas intocáveis", a quem nada pode atingir ou fazer mal. Se, porém, essas pessoas entrarem em um mínimo contato que seja com a realidade, verão que todos os seres humanos estão suscetíveis aos males e desgraças desta vida, e que elas não eram assim tão especiais quanto imaginavam. As tragédias e eventualidades da vida podem abrir os seus olhos, chamando-as à solidariedade com o próximo e servindo de remédio para a sua doença.
O remédio da gratidão. – Enzo Bianchi, ao falar sobre a cura para a inveja, aponta outro remédio: o da gratidão. Diz ele que "matou o sentimento da inveja em si mesmo quem souber dizer: 'Aquilo que eu pude fazer de bem, eu o fiz graças aos outros que estão comigo: sem estes meus irmãos, sem estes meus amados, não poderia fazer aquele pouco de bem que realizei" [7]. Um dos passos da terapia, portanto, consiste em ser agradecido pelo dom do outro, enxergando a realidade sempre com um coração eucarístico, em constante ação de graças.
O remédio do amor. – A tristeza pecaminosa faz as pessoas deslizarem para um mundo paralelo, do qual desaparecem todas as realidades eternas. São Gregório Magno, em seu famoso e extenso comentário moral ao Livro de Jó, ensina a "quem quer ser totalmente liberto da peste da inveja" que "ame aquela herança que não diminui com o crescimento do número de herdeiros" [8]. O grande Papa e Doutor da Igreja vê na raiz do pecado da inveja o apego às coisas materiais. De fato, nos bens terrenos, o ter de um é muitas vezes associado ao mal e à privação por parte de outrem. Assim, se um indivíduo só recebe uma herança, ele tem tudo; se, porém, descobre um coerdeiro, é obrigado a repartir metade do que tem com ele. Para vencer a inveja, pois, é preciso elevar os olhos àquela herança "que não diminui com o crescimento do número de herdeiros". Ou seja, com os bens espirituais, acontece o contrário do que se dá com os objetos materiais: quando se dá Deus a uma pessoa, aumenta a caridade na alma de quem dá e cria-se a caridade na alma de quem recebe; se, por outro lado, se deseja o mal eterno a alguém, o primeiro a ganhar o mal é quem amaldiçoa, porque Deus e o ódio não podem conviver em um mesmo lugar.
Continua São Gregório: "Quae si perfecte in amore coelestis patriae rapitur, plene etiam in proximi dilectione sine omni invidia solidatur – Quem é perfeitamente arrebatado pelo amor da pátria celeste, torna-se plenamente solidário no amor ao próximo, sem nenhuma inveja" [9]. A cura da tristeza está, pois, no amor. Os marxistas acreditam que a fé na vida eterna "aliena" os homens e faz com que eles se esqueçam desta vida. O que acontece, porém, é o contrário: só de olhos fixos no Céu é possível resolver os antagonismos e os conflitos deste mundo. Para uma ideologia que vive em torno da inveja, é muito difícil aceitar isso. O teórico Pierre Bourdieu († 2002) insistia em que se falasse sobre o tema dos "excluídos" porque, de fato, todos podem sentir-se excluídos por alguma coisa e é esse sentimento de insatisfação – que degenera em ódio, guerras e destruição – o combustível para a revolução marxista.
O remédio para a "luta de classes" preconizada por Marx está na "contemplação da verdade", apontada por Santo Tomás: a realidade mais verdadeira que os homens devem ter diante de si é a grandeza de sua vocação, a efemeridade deste mundo e a bem-aventurança eterna da qual Deus nos quer fazer partícipes.
O remédio do arrependimento. – Para quem investiu toda a sua vida em alegrias passageiras, há uma solução: recorrer à verdadeira alegria, trilhando a senda do arrependimento. O místico São João Clímaco fala do πένθος (pénthos) [10], que não é senão o luto sadio do filho pródigo, que deixa de comer a lavagem dos porcos e volta para a casa do pai, onde é recebido com festa (cf. Lc 15, 11-32).
Atente-se que, diante da alegria com que é recebido de volta o irmão mais novo, o filho mais velho se entristece, não querendo entrar no festim de seu pai. Existem, portanto, uma tristeza que conduz à salvação e outra que conduz à morte. Na história da salvação, várias personagens representaram essa tristeza pecaminosa – de Caim a Saul, dos carrascos de Jesus aos perseguidores dos Apóstolos. Os seus exemplos, porém, são sinal de uma única e fatal tristeza: a que não reconhece a alegria do Evangelho e a verdade que, contemplada pelos homens, leva-os ao Céu.

Referências
Cf. Suma Teológica, I-II, q. 38.
Suma Teológica, I-II, q. 38, a. 1.
Suma Teológica, I-II, q. 38, a. 4.
Conferências, XVIII, 17 (PL 49, 1122-1123).
Admoestações, 8 (FF, 157).
Centúrias sobre a Caridade, III, 91 (PG 90, 1046).
BIANCHI, Enzo. Una lotta per la vita: conoscere e combattere i peccati capitali. San Paolo, 2011, p. 184.
Moralia in Iob, V, 86 (PL 75, 729).
Id. (PL 75, 730).
Cf. Escada do Paraíso, VII (PG 88, 801-828).

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O pecado da tristeza

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Para quem crê no amor de Deus, há sempre algo de nocivo em alimentar a tristeza e mendigar o amor dos outros com vitimismos e ressentimentos.

Embora não estivesse no plano original do Criador, a tristeza, enquanto paixão, é uma realidade moralmente neutra, como já se falou na última aula. Para que seja pecaminosa, torna-se necessário o concurso da inteligência e da vontade.
Antes, porém, de falar sobre como a tristeza assume o caráter de doença espiritual, importa distinguir que a palavra "pecado" – entre múltiplas classificações possíveis [1] – pode ser usada para se referir:
ao pecado original, que, em toda a humanidade, com exceção de Adão e Eva, não é uma falta cometida, mas simplesmente contraída, herdada;
ao pecado pessoal (também chamado de atual) que "é aquele que o homem, chegado ao uso da razão, comete por sua livre vontade" [2]; ou ainda
aos chamados pecados capitais (às vezes simplesmente chamados de vícios), que são as "doenças espirituais" propriamente ditas.
No que diz respeito a essa última acepção, a tristeza – bem como os outros pecados capitais – pode estar alojada na alma, ainda que esta se encontre em estado de graça. Assim é, porque o pecado capital se trata de um hábito, uma tendência que provém do pecado e conduz a ele – dependendo da liberdade do indivíduo para se transformar em ato.
Convém explicar que as paixões podem ser antecedentes ou consequentes à intervenção da inteligência e da vontade. Tome-se como exemplo o pecado da luxúria. Nem todos os movimentos carnais – ou, em uma linguagem mais popular, nem toda excitação – são provocados. O simples sentir não é pecado, mas o consentir. Só se peca quando, diante da percepção do movimento carnal, se passa a alimentar a fantasia.
O mesmo ocorre com a tristeza. Pode ser que, por razões físicas – o cérebro não esteja produzindo serotonina como deveria, por exemplo –, uma pessoa caia em tristeza, sem que sequer se dê conta de que está triste. É quando ela toma consciência de seu estado e age deliberadamente para alimentá-lo, que acontece o pecado. Por isso, São Paulo escreve, em sua Carta aos Filipenses: "Alegrai-vos sempre no Senhor!" (Fl 4, 4). De fato, para quem crê no amor de Deus, há sempre algo de malsão em entristecer-se propositalmente e mendigar o amor dos outros por meio de vitimismos.
Nem toda tristeza, porém, é má. Santo Tomás de Aquino define a paixão da tristeza simplesmente como uma dor interior diante de um mal. Se este mal é um mal verdadeiro, Tomás enxerga, com perspicácia, a existência de uma tristeza boa. Diz ele:
"A tristeza tem utilidade, se é por causa de um mal a evitar. (...) Assim, a tristeza do pecado é útil para o homem fugir do pecado, segundo diz o Apóstolo, em 2 Cor 7, 9: 'Alegro-me não de que vocês estejam tristes, mas de que vossa tristeza vos levou à penitência'." [3]
Assim, quando alguém se entristece porque perdeu o sumo Bem, essa tristeza o leva de volta para casa, como fez o filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32). Esse luto também é chamado pelos padres gregos de πένθος (pénthos) e está ligado ao dom de lágrimas.
Quando, porém, o que a pessoa perde é um bem aparente, como que um lobo vestido em pele de cordeiro (cf. Mt 7, 15), tem-se a tristeza ruim. Explica Santo Tomás que "assim como a tristeza pelo mal procede de uma vontade e de uma razão reta, que detestam o mal, assim a tristeza pelo bem procede de uma razão e vontade perversa, que detestam o bem" [4]. O pecado da tristeza, portanto, está ligado mais a "uma razão e vontade perversa" do que propriamente à paixão presente na alma.
Por isso, São Paulo fala de duas tristezas (cf. 2 Cor 7, 10): uma que é segundo a carne ("κόσμου λύπη", kosmou lipe) e uma que é segundo Deus ("Θεὸν λύπη", Teón lipe).
Noutro lugar, o Aquinate ainda fala sobre as espécies de tristeza [5], dentre as quais se destacam:

A acídia [6], que se entristece com o bem divino;
A inveja [7], que se entristece com o bem do próximo.
Cabe esclarecer que o Doutor Angélico segue aqui a classificação tradicional, tal como encontrada em São Gregório Magno [8] e nos demais padres latinos. Em João Cassiano [9], Evágrio Pôntico e nos outros padres gregos, porém, a distinção entre as espécies de tristeza é um pouco mais nebulosa e a acídia figura apenas como uma espécie de tristeza mais grave. Santo Tomás, distinguindo os diferentes objetos das tristezas, consegue ser mais cirúrgico nessa questão.

Tomás também enumera, citando o Papa Gregório, as filhas espirituais da inveja, que são "o ódio, a murmuração, a detração, a satisfação com as adversidades alheias e a decepção com a sua prosperidade" [10]. Afinal, é isto o que constitui um vício capital, a saber, o fato de que eles "geram outros pecados, outros vícios" [11].

Referências

Cf. Catecismo da Igreja Católica, 1853; Suma Teológica, I-II, q. 72.
Catecismo de São Pio X, 946.
Suma Teológica, I-II, q. 39, a. 3.
Suma Teológica, I-II, q. 39, a. 2, ad 2.
Cf. Suma Teológica, I-II, q. 35, a. 8.
Cf. Suma Teológica, II-II, q. 35.
Cf. Suma Teológica, II-II, q. 36.
Cf. Moralia in Job, XXXI, 87: PL 76, 621.
Cf. Conlatio, V, 2: PL 49, 611.
Suma Teológica, II-II, q. 36, a. 4.
Catecismo da Igreja Católica, 1866.
Bibliografia

LARCHET, Jean-Claude. Terapia delle malattie spirituali. Un'introduzione alla tradizione ascetica della Chiesa ortodossa. San Paolo Edizioni, 2003. 814p.

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Quem não avança, recua

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A obediência jurídica aos mandamentos de Deus não é suficiente para atingir a perfeição ensinada por Jesus

O início da vida espiritual é marcado por um forte entusiasmo no relacionamento com Deus e a Igreja. O indivíduo sente-se atropelado pela nova descoberta, algo que o leva a querer aprofundar-se cada vez mais como também a compartilhar esse sentimento com os outros à sua volta, seja pai, mãe, irmão ou amigo. Entra em confrarias, reza novenas, faz consagrações e vigílias. Todos os que já percorrem há algum tempo o caminho da perfeição — na linguagem de Santa Teresa — conhecem bem esse período da fé. É quase como em um namoro.
É neste período também que as pessoas geralmente progridem na luta contra os pecados mais grosseiros, isto é, os pecados mortais, que impedem o acesso à Santíssima Eucaristia. Como um bebê a aprender os primeiros passos, o neófito começa a caminhar pela estrada da santidade de maneira bastante determinada, apesar das muitas quedas. A criança, quando decide levantar-se do chão e retomar seu percurso, conta com a ajuda dos pais. Isso lhe dá confiança para seguir em frente, pois sozinha, a lição tornar-se-ia demasiado difícil. Assim ocorre com o recém convertido. Ele conta com o auxílio de Deus, dos anjos e dos santos para vencer suas primeiras batalhas.
Neste sentido, o que chamamos de empolgação inicial seria, na verdade, mais um sopro do Espírito Santo a incentivar-nos ao combate contra o gigante Golias. Sem o auxílio da graça, bem sabemos disso, a luta contra as seduções do mundo, da carne e do diabo é muitíssimo dura — ainda mais para aqueles que viveram chafurdados na lama dos vícios por um longo tempo. É o que lemos, por exemplo, nas Confissões de Santo Agostinho. O grande doutor da Igreja precisou de muita oração antes de, finalmente, dar adeus àquelas suas companheiras perniciosas, as quais lhe diziam em tom de lamentação: "Você vai nos deixar?" [1].
Bento XVI resume esse processo de conversão em brevíssimas palavras: "Quem quer dar amor, deve ele mesmo recebê-lo em dom" [2]. Deus nos chama à grande missão da caridade: amar sem medida. Mas, para que isso aconteça, o homem necessita de ser purificado e preenchido pelo amor divino, uma vez que a ferida do pecado danificou sua capacidade de olhar as demais pessoas como criaturas amadas por Deus. Pelo contrário, o homem escravo do pecado trata seus irmãos como objetos de satisfação pessoal.
O ser humano precisa aprender novamente a amar. E esse aprendizado só é possível dentro de um ambiente de virtudes, ou seja, "o sujeito moral deve estar dotado de um certo número de disposições interiores" se quiser encontrar a justa medida das coisas [3]. É por isso que Deus o cumula de graças. Somente assim ele pode, diante da tentação, triunfar sobre os pecados mortais, como explica o profeta: "Eu lhes darei um só coração e os animarei com um espírito novo: extrairei do seu corpo o coração de pedra, para substituí-lo por um coração de carne" ( Ez 11, 19). De outro modo, o ser humano fica insensível aos apelos da lei natural.
A conversão, contudo, não é todo o projeto de Deus. Atenção! O homem não é chamado apenas à obediência aos Dez Mandamentos. Para isso, bastariam Moisés e as exortações do Antigo Testamento. O projeto de Deus consiste na perfeição. Jesus veio para convidar o ser humano a tornar-se perfeitamente santo, como o Pai é santo (cf. Mt 5, 48). De fato, para alcançar o Céu — e vemos isso na resposta de Cristo ao jovem rico —, basta o cumprimento das leis eternas (cf. Mt 19, 17). O chamado de Jesus, por outro lado, desafia o homem a uma jornada muito maior.
Essa afirmação pode nos assustar, a princípio, mas constatamos sua veracidade em nossas próprias vidas. Após certo tempo daquele primeiro encontro, daquele início de namoro, percebemos o começo de outra fase, frequentemente caracterizada por um sentimento de aridez e insatisfação. Assim como o jovem rico, cumprimos os mandamentos, rezamos e dedicamos tempo às tarefas da Igreja. No entanto, permanece em nosso íntimo uma sensação de vazio, a qual, sem o discernimento de um bom diretor espiritual, pode levar à tibieza e à desesperança. A concessão deliberada aos pecados veniais é a marca mais evidente desse tempo.
Por que motivo isso acontece? Vários autores espirituais já explicaram as causas desse "deserto" em que alma mergulha, por assim dizer, após a chamada primeira conversão. Em um primeiro momento, pode se tratar apenas de uma frouxidão espiritual. A alma cansou-se de lutar por sua conversão. Na maioria dos casos, é o mais comum. Para os mais progredidos na fé, todavia, há a possibilidade de uma noite escura dos sentidos, isto é, a purificação passiva que Deus opera na alma do fiel, a fim de que seja capaz de desapegar-se totalmente do mundo material. Em resumo, Deus oculta-se para que o busquemos; "e para que continuemos a indagar, mesmo depois de encontrá-lo, é inesgotável: sacia os desejos conforme a capacidade de quem investiga" [4].
Esse segundo passo na conversão é necessário para que não nos tornemos anões espirituais. Conforme explica o padre Garrigou-Lagrange, "um principiante que não entra na via dos avançados quando deveria, não permanece principiante mas se torna uma alma retardada" [5]. Foi o que aconteceu com o jovem rico. Diante do convite de Jesus a uma segunda decolagem em seu voo espiritual, o jovem rico acabou optando pelo pouso. "Ouvindo estas palavras, o jovem foi embora muito triste, porque possuía muitos bens" (Mt 19, 22). Na vida espiritual, quem não progride, recua.
Jesus chama-nos à perfeição. Quer que entremos no Céu pela porta da frente. E isso requer uma entrega generosa de nossa parte. O purgatório existe justamente para aqueles que não foram generosos e preferiram entrar no Céu pela porta dos fundos. Por isso, com razão pode-se chamar o purgatório de um estado de lamentação e ranger de dentes. A alma chorará pelas oportunidades que Deus lhe deu para amar, mas não foram aproveitadas devido ao apego às ninharias do mundo.
O indivíduo que "cresce perante os obstáculos", por sua vez, realiza na sua vida as palavras de São Josemaría Escrivá aos seus filhos espirituais: "Que importa que de momento tenhas de restringir a tua atividade, se em breve, como mola que foi comprimida, chegarás incomparavelmente mais longe do que nunca sonhaste?" [6]. Deus, embora aparentemente oculto, não deixa de acompanhar-nos com a Sua graça.
Peçamos a Deus e à Virgem Santíssima a força necessária para caminharmos resolutamente na estrada da perfeição!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere - Site Pe. Paulo Ricardo

Referências
Cf. Santo Agostinho, Confissões, VIII, 11 (PL 32, 760-761).
Bento XVI, Carta Encíclica Deus Caritas Est (25 de dezembro de 2005), n. 7.
Comissão Teológica Internacional, Em busca de uma ética universal: novo olhar sobre a lei natural (6 de dezembro de 2008), n. 55.
FERNANDEZ-CARVAJAL, Francisco. Falar com Deus: meditações para cada dia do ano (VII). São Paulo: Quadrante, 2005, p. 107.
GARRIGOU-LAGRANGE, Reginald. As três vias e as três conversões. Rio de Janeiro: Permanência, 2011, p. 48.
Caminho, n. 714.

Não só a tristeza indica depressão, a irritabilidade também

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Não apenas a tristeza contínua e intensa ou, melhor dizendo, o estado de ânimo sem esperanças, desanimado ou “no fundo do poço” é indicativo de depressão. De fato, a tristeza como sintoma pode não se manifestar em uma pessoa deprimida, sendo a sua prima irmã a irritabilidade.

Sim. Por mais estranha que esta afirmação pareça, uma pessoa deprimida pode não se mostrar triste mas se manifestar de forma irritada, instável ou frustrada. As queixas somáticas, o mau humor, os incômodos, as dores físicas, as montanhas russas emocionais, etc. Tudo isso pode substituir a tristeza como sintoma de um problema emocional como a depressão.

Portanto, poderíamos dizer que as manifestações de raiva, como a insensibilidade, a irritabilidade, a agressividade, e o comportamento “autoritário” são, às vezes, gritos que pedem para sair do buraco de escuridão no qual a depressão sufoca.

A irritabilidade como critério diagnóstico de depressão

Segundo critérios tanto do Manual Diagnóstico dos Transtornos mentais na última versão (DSM-5) como na Classificação Internacional de Doenças (CIE-10), um diagnóstico clínico de depressão pode ser realizado se a pessoa mostrar, entre outras condições, irritabilidade em vez de tristeza.

Isto é, se uma pessoa constantemente mal-humorada mostra uma ira persistente, uma tendência a responder aos acontecimentos com ataques de ira, insultando aos outros ou com um sentimento exagerado de frustração por coisas sem importância, pode estar afundada em um estado de ânimo depressivo patológico.

Em crianças e adolescentes pode se manifestar um estado de humor irritadiço ou instável mais que um estado de ânimo triste e desanimado. Isto precisa ser diferenciado do que se considera um padrão de “menino mimado”, com irritabilidade frente às frustrações.

Contudo, cabe ressaltar que do mesmo jeito que a tristeza por si só não é um critério suficiente de depressão e precisa de outras conotações para ser considerada patológica, o mesmo acontece com a irritabilidade.

Concretamente, para fazer um diagnóstico de depressão segundo os sistemas classificatórios citados, estas duas condições em separado são necessárias, mas não suficientes. Portanto, não se pode interpretar que basta estar triste ou irritado para estar deprimido.

A tristeza e a irritabilidade, por si sós, são estados emocionais saudáveis, pois pretendem nos informar de que existe algo que nos incomoda e que está nos prejudicando. Eles somente se transformam em patológicos quando distorcem as nossas vidas e deterioram demasiadamente as nossas esferas sociais e profissionais durante muito tempo.

Em geral, é preciso ter cuidado com a irritabilidade porque ela pode nos levar a fazer qualquer coisa sem que consideremos as consequências negativas. Portanto, um estado persistente tingido desta instabilidade característica pode chegar a ser devastador.

Perder a linha com facilidade, fazer comentários desagradáveis, ser pouco tolerante, demonstrar impaciência, sentir nervosismo, manifestar agitação, ter reações inadequadas, começar a se afastar de certas pessoas por serem desagradáveis, etc. Tudo isso indica que alguma coisa não está bem na própria vida e que é preciso tomar medidas.

Portanto, a ira ou a irritabilidade que se manifestam quando padecemos de uma depressão é uma forma de externalizar o que se sente e não está sendo expressado. Podemos dizer que a pessoa deprimida tem a sensação de estar oprimida, de levar no pescoço um cachecol que pesa toneladas.

Isto a faz se sentir afundada, vulnerável, com a impressão de que esse cachecol não a deixa caminhar, dificultando a sua vida e descompensando o seu ânimo. Isto causa a instabilidade e a dificuldade que essas pessoas têm de realizar suas atividades no dia a dia.

Portanto, com a pouca força que esse tenebroso cachecol lhes permite ter, conseguem, quando muito, comer alguma coisa e dormir. Este é o peso da angústia, a qual se traduz em uma realidade asfixiante de tristeza ou irritação dependendo da pessoa e, obviamente, do momento.

(via Mente Maravilhosa)

Sexo antes do casamento é pecado?

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Nossa resposta a um desabafo

Enquanto continuarmos achando que as cadeias do nosso pecado são apenas pulseiras de adorno, a verdade do Evangelho de Cristo jamais nos libertará.

Em reação ao vídeo "Por que o sexo antes do casamento é pecado?", um rapaz nos direcionou a seguinte mensagem no Facebook:

"Sério, como a religião cega as pessoas. Então quer dizer que, se duas pessoas estão namorando há pelo menos, digamos, uns três anos, mas ainda não se uniram em sagrado matrimônio, com toda aquela hipocrisia (sic) de pompa e circunstância e o famoso clichê de 'até que a morte os separe', não podem fazer sexo?! Se o fizerem, então suas almas estão condenadas eternamente ao fogo do inferno? Então só se ama alguém de verdade se essas duas pessoas colocam uma porcaria (sic) de aliança de ouro no dedo um do outro? A maior prova de que casamento em si não significa nenhum pouco de prova de amor de verdade, é a quantidade desses que são destruídos por adultério ou traição.
Sexo antes do casamento não é pecado coisa nenhuma. Sabe o que é verdadeiro pecado? Trair a quem se ama, trair a confiança de um amigo, humilhar as pessoas, ser preconceituoso, difamar, dar falso testemunho. Na própria Bíblia mesmo está escrito: 'Não julgueis, para não serdes julgados'! Então, sejam menos mesquinhos e respeitem a escolha de cada um, pois por trás de muitos 'casamentos maravilhosos' existem homens e mulheres nojentos (sic) e podres de alma. Em contrapartida, existem aqueles que não se casaram, fizeram sexo mesmo assim e se amam de verdade, sem pecado algum! Pronto, está dito, doa a quem doer."

O "desabafo" desse internauta é uma ocasião propícia para falarmos novamente da castidade no namoro, esse tema que se tornou tão complicado nos últimos tempos, até mesmo em ambientes cristãos. Assim como esse rapaz se dispôs a dizer o que pensa, "doa a quem doer", também nós faremos o mesmo aqui, pois acreditamos que, ao lado do dever de manifestar a verdade, os católicos têm a missão de repelir os erros que a contrariem. Os grandes doutores da Igreja, de fato, não "pregavam" apenas dos púlpitos das igrejas: eles debatiam e corrigiam, com caridade, quem quer que se encontrasse em algum caminho tortuoso. Assim, humildemente, esperamos que estas palavras ajudem as pessoas afastadas a se encontrarem com a fé e a aceitarem a doutrina moral da Igreja.
Como ponto de partida, tomemos a tese central de nosso comentarista: a de que "sexo antes do casamento não é pecado coisa nenhuma".

Quem o autoriza a dizê-lo com tanta certidão?
Ninguém, absolutamente. Ele simplesmente põe a frase, mas a fonte é ele mesmo. Mais adiante, ele até cita uma passagem bíblica, mas, aparentemente, serve-se dela apenas como um recurso retórico. Se acreditasse no todo da revelação divina contido nas Sagradas Escrituras, nosso comentarista certamente não diria que "sexo antes do casamento não é pecado coisa nenhuma", porquanto os primeiros cristãos já ensinavam, em consonância com a própria tradição judaica, que a fornicação é pecado (cf. At 21, 25; 1 Cor 6, 18; Gl 5, 19; Ef 5, 3).
Mas, a pergunta é importante, o que é verdadeiro pecado? Nosso comentarista tem um rol de bons exemplos: "Trair a quem se ama, trair a confiança de um amigo, humilhar as pessoas, ser preconceituoso, difamar, dar falso testemunho". Seguramente, não há o que questionar: essas coisas são realmente pecaminosas.
A questão que precisa ser colocada é: de que modo nosso comentarista chegou a essa conclusão? Como descobriu que tal e qual coisa são erradas, e o que faz com que ele as chame de pecado?
"Pecado" significa, de acordo com a Primeira Epístola de São João, "transgressão da Lei" (1 Jo 3, 4). Santo Agostinho é um pouco mais minucioso e, em uma definição que já se tornou célebre, diz: "Peccatum est dictum vel factum vel concupitum contra legem aeternam — O pecado é a palavra, a ação, ou o desejo contra a lei eterna" [1]. Para sabermos o que é pecado, portanto, é preciso que conheçamos essa "Lei" de que fala o apóstolo São João, essa "lei eterna" de que fala Santo Agostinho.

Mas o que fazer para conhecê-la?
São duas as suas fontes: a razão humana e a revelação divina.
A razão humana, porque a lei eterna de Deus reflete nas criaturas racionais uma outra lei, a que damos o nome de "natural": por ela, as pessoas são capazes de dizer, usando a própria razão, se determinados atos, palavras ou desejos são bons ou ruins; é por causa dessa lei, inscrita no próprio coração humano, que uma pessoa sem nenhuma instrução religiosa sabe, por exemplo, que matar, tomar a propriedade alheia, mentir ou "trair a quem se ama" são condutas más e devem ser evitadas. Não é necessário ser católico apostólico romano e ir à Missa todos os domingos para ter consciência de que determinadas coisas são pecado. Um esquimó que, sem culpa própria, nunca tenha ouvido falar de Cristo, pode muito bem "cumprir por obras a sua vontade conhecida por meio do ditame da consciência" [2] — palavras do Catecismo da Igreja Católica.
A revelação divina da Lei, no entanto, era necessária não só para elevar o homem ao conhecimento da fé — que supera e transcende a nossa mera capacidade racional —, mas até mesmo para deixar sólidas aquelas verdades que poderíamos alcançar pelo simples uso de nossa faculdade racional, já que, com o pecado original, o ser humano ficou debilitado até mesmo para reconhecer a lei natural. Um dos motivos da revelação, portanto, foi a fraqueza da condição humana após a queda de Adão e Eva: com a mente turva e os sentimentos perturbados, ficou difícil para o homem alcançar as verdades de sua própria natureza.
O mal do sexo fora do casamento é uma dessas verdades que podem ser apreendidam com o simples uso da razão. Santo Tomás de Aquino, por exemplo, ao dialogar com quem não era cristão em sua famosa obra Suma contra os gentios, reúne um monte de argumentos para mostrar que, sim, "a simples fornicação é pecado contra a lei divina" [3].
A fornicação é errada, portanto, não simplesmente "porque a Igreja quis assim". A razão humana testemunha a maldade do sexo fora do compromisso conjugal e, para confirmar a inquietude da nossa consciência, vem em nosso auxílio a revelação do próprio Deus, que condenou essa conduta ainda na Antiga Lei (cf. Dt 17, 23; Tb 4, 13), reiterando essa proibição na Nova Aliança, seja pelas palavras de seu Filho (cf. Mt 5, 28), seja pelas palavras dos Apóstolos (já referidas acima) e dos seus sucessores [4].
A palavra "proibição", no entanto, provoca arrepios e traz imagens sinistras à imaginação das pessoas. É justamente por estar associada ao advérbio "não" que a nossa sociedade tende a enxergar a castidade como um fardo pesado e custoso de se carregar. Anos a fio de doutrinação ideológica nas escolas somam a esse preconceito as fogueiras da Inquisição, a rigidez da educação religiosa e... o argumento está pronto: o que esses católicos querem, na verdade, é "controlar as mentes" das pessoas e castrar os seus impulsos sexuais!
Nesse momento, é preciso conter um pouco a própria imaginação (ou a memória, às vezes) e tentar enxergar as coisas como elas realmente são.
"Castidade" não é um conjunto de normas sexuais carregadas de sanções punitivas. É verdade que existe uma pena para quem livre e conscientemente se afasta de Deus. Das coisas que Nossa Senhora mostrou aos três pastorinhos de Fátima, em Portugal, uma das primeiras foi o inferno, que é para onde vão "as almas dos pobres pecadores" que não se convertem. Mais do que um temor (sadio!) do castigo eterno, porém, o Evangelho de Cristo veio trazer ao homem a lei do amor. É por isso que, no episódio do programa "A Resposta Católica" sobre o sexo antes do casamento, Padre Paulo Ricardo insiste bastante no fato de o sexo fora do casamento ser uma forma de usar o outro, não de amar! Para perceber isso, basta tirarmos as vendas passionais que temos diante dos olhos. Como pode ser amor o ato egoísta de duas pessoas que se entregam totalmente no sexo, mas, ao amanhecer do dia, cada um se levanta de volta para sua casa? Como pode ser "natural" a fornicação, se transforma uma pessoa em objeto, tanto mais quanto se procura de todos os modos evitar a possibilidade dos filhos? Como pode ser amor que uma menina perca a sua virgindade sem sequer saber se o outro está disposto a perder a sua vida por ela, colocando uma aliança em seu dedo — aliança que nosso comentarista chama de "porcaria"?
É verdade que uma aliança, por si só, não significa nada. Nisto nosso comentarista está certo, "por trás de muitos 'casamentos maravilhosos' existem homens e mulheres podres de alma". O sinal da aliança é importante, todavia, porque carrega consigo a imagem do compromisso: lembra que o amor não é uma simples atração, mas um ato firme da vontade, que quer o bem do outro e se dispõe a isso, sim, por toda a vida — "até que a morte os separe", porque as pessoas não são objetos para uso de "uma noite" e descarte logo em seguida.
O que Deus pede do homem e da mulher, no entanto, não é a "pompa e circunstância" de uma cerimônia luxuosa, não são um vestido e um terno caros, nem carreiras profissionais bem sucedidas ou salários suntuosos. Quando, para conter a epidemia dos "casamentos clandestinos", a Igreja sabiamente estabeleceu, usando o poder das chaves (cf. Mt 16, 19; 18, 18), que a celebração do casamento deveria ser feita "na presença do pároco" ou de outro sacerdote autorizado, ela foi bem simples em sua colocação:
"Se não se apresenta nenhum impedimento legítimo, proceda-se à celebração do matrimônio em presença da Igreja, na qual o pároco, interrogados o varão e a mulher e entendido seu mútuo consentimento, diga: 'Eu vos uno em matrimônio, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo', ou use de outras palavras, segundo o rito aceito em cada província." [5]
Essa determinação foi feita pela Igreja no século XVI. É, portanto, uma lei eclesiástica, válida somente para católicos batizados [6]. Nela, como se pode ver, não consta nenhum luxo excessivo, nenhuma imposição de festa, nenhuma "pompa" abusiva, porque, no fim das contas, não é isso que importa para Deus. O importante é que o casal se ame (de verdade) e queira fazer a vontade divina em suas vidas, o que inclui evitar o pecado — pecado que não é o que um ou outro charlatão arbitrariamente define como tal, mas o que Deus desde a eternidade fixou em sua Lei e transmitiu aos homens, seja através da razão que eles possuem, seja através da revelação que a Igreja guarda como fiel depositária.
Para entender a fundo todas essas coisas, no entanto, nada é tão necessário quanto a fé. Sem ela, é até possível compreender este ou aquele ponto da doutrina moral católica — a indissolubilidade do matrimônio é outro exemplo de verdade que pode ser alcançada pelo uso de nossa razão [7] —, mas não se é capaz de admirar o conjunto da obra. Quem vê de fora os Dez Mandamentos até consegue enxergar a sua razoabilidade, mas, não tendo fé, fica no superficial: os Mandamentos não passam, então, de algumas "regrinhas de boas maneiras". Quem olha tudo isso, todavia, a partir do Evangelho, a partir da Encarnação do Verbo, a partir do fato de que o mesmo Deus que deu as tábuas da Lei a Moisés enviou ao mundo o seu Filho para dar também a nós a filiação divina pela graça, é capaz de enxergar um mundo completamente novo à sua frente. E isso — eis o que é mais extraordinário — não está reservado a uma pequena elite, a este ou aquele grupo especial, porque Deus o preparou para todos!
Só diante de todo esse conjunto é possível entender, por exemplo, que o pecado humano tenha consequências tão terríveis, como diz o Apóstolo: "O salário do pecado é a morte" (Rm 6, 23). Não se trata de coisa insignificante, de "bagatela", como o demônio e o mundo têm tentado pintar, a fim de seduzir e enganar as pessoas. A lama de imundície em que os homens de nosso tempo chafurdam é a prova viva de que não é a religião que "cega as pessoas", como diz o nosso comentarista; são os nossos sentimentos descarrilados que cegam a nossa razão e nos impedem de ver a realidade que dança, às vezes freneticamente, diante de nossos olhos. Como diz, aliás, o Papa Pio XII, o homem, não raro, procura persuadir-se de que seja falso ou ao menos duvidoso aquilo que, no fundo, não deseja admitir que seja verdadeiro [8].
Para que as escamas caiam de nossos olhos, não nos vai adiantar "tomar" o lugar de Deus e tentar definir o que é certo e o que não é, o que é pecado e o que não é. Tudo já está escrito, não só no papel de alguns livros religiosos, mas na carne do nosso próprio coração. O que precisamos fazer é ouvir a voz de Deus, ter fé no que Ele nos revelou e nos arrependermos de nossos pecados.
Enquanto continuarmos achando que as cadeias do nosso pecado são apenas pulseiras de adorno, a verdade do Evangelho de Cristo jamais nos libertará.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

Santo Agostinho, Contra Faustum, XXII, 27 (PL 42, 418).
Catecismo da Igreja Católica, n. 847.
Santo Tomás de Aquino, Contra Gentiles, III, 122.
Cf. Papa Inocêncio IV, Carta Sub catholicae professione, de 6 de março de 1254, n. 18 (DH 835); Inocêncio XI, Decreto do Santo Ofício, de 2 de março de 1679, n. 48 (DH 2148).
Concílio de Trento, Decreto Tametsi, de 11 de novembro de 1563 (DH 1814).
Cf. Código de Direito Canônico, cân. 1108.
Cf. Santo Tomás de Aquino, Contra Gentiles, III, 123.
Papa Pio XII, Carta Encíclica Humani Generis (12 de agosto de 1950), n. 2.

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